A arca de guardar sentimentos
Prêambulo e primeiros capítulos
Preâmbulo
A arca de guardar sentimentos começava a ser aberta. Ou fazia força de dentro para se abrir. O texto fazia força de algum lugar. O texto brigava com a sonolência para poder ser chamado de texto. Despregar-se.
Estou confusa com o que acho bonito. Quero continuar achando bonito o que achava antes, mas fiquei cansada demais carregando a arca de guardar sentimentos.
Me pergunto quantos episódios renderia a arca transformada em texto. Já que nos comprazemos em pensar por números. É também uma forma de distrair-se do barulho que faz dentro da arca.
Mas a arca não tem o direito de abrir-se sozinha. Sem o texto, ela se perderia de si mesma. É por isso que o texto dela se chama sentimento.
O texto da arca não é, no entanto, premeditado. Pressentido? Se a sonolência permitir que a tampa possa ser aberta, sim.
É melhor preparar-se, de qualquer jeito, logo virá o aguaceiro. E ninguém vai poder dormir.
Capítulo I
A arca de guardar sentimentos já fazia muito barulho. Não era um barulho de ouvir, mas do chacoalhar dela. Sentava em cima da arca para evitar que se abrisse.
E tentava me agarrar às porcelanas que achava bonitas. Achava que ficariam bem um uma prateleira, longe do mingau, da sopa e dos biscoitos de polvilho. Desse modo, ficariam preservadas. Do desgaste. Do desgosto.
Pensava em uma prateleira acima do nível dos olhos, para que quem olhasse, soubesse bem que as porcelanas eram bonitas e pudesse dizer em voz alta que o eram.
No fundo, sabia que nada daquilo permaneceria no lugar quando a arca se abrisse. Embora a arca não estivesse no mesmo cômodo que as porcelanas.
Talvez não fosse má ideia trazer a arca de guardar sentimentos para a sala, assim ela ficaria mais exposta e com mais vergonha do que guardava, assim poderia vigiar as porcelanas ao mesmo tempo em que evitava que a arca se abrisse.
A arca, no entanto, pedia outra coisa. Ela insistia que a deixasse no seu lugar. Ela chamava no escuro do quarto e pedia para fazer silêncio e encostar o ouvido na tampa. Só assim poderia ouvir os sussurros que viriam fazer dela o texto.
Capítulo II
Depois era Inácia que chamava para sair, ir ao parque, ao cinema. Eu disse que não poderia, a arca de guardar sentimentos ocupava todo o meu dia e tumultuava meus sonhos à noite.
A Inácia não fazia aquilo por mal, mas ela me incomodava com seus convites. Eu tinha outras coisas a fazer. Uma delas era fazer o que a arca me pedia. A arca insistia para que eu sentisse todo o peso dela. Como vestir todas as minhas roupas ao mesmo tempo.
E eu tinha decidido que não queria mais saber de distrações. Já tinha guardado as porcelanas no fundo do armário para que não me causassem mais aflição com o bonito delas.
Mas a Inácia vinha me dizer que o dia estava bonito demais para ficar enfurnada em casa. E a arca suplicava para não prestar atenção nas estações naquela hora. Era mais importante vestir as roupas de verão e as de inverno, sobrepor umas às outras e sentir o peso de ser eu.
Pedi à Inácia que saísse, que fosse aproveitar o dia sozinha. Disse a ela que precisava arrumar o guarda-roupas. O que não era nem verdade e nem mentira. Ela quis me ajudar. Vá, Inácia, isso é coisa minha.
Ela finalmente saiu, fazendo uma careta. Eu também fiz uma para ela e fechei a porta.
Capítulo III
Fechei a porta do quarto e fiquei quieta ouvindo. Fechei também os olhos, porque com eles abertos, logo as coisas ao redor poderiam tornar tudo cansativo demais com o chamar delas para si.
Fui capaz então de descobrir naquela hora o meu querer, ali me importunando. Não tinha podido mandá-lo embora com uma careta, como tinha feito com Inácia. E era justo que viesse aparecer no texto tão logo encontrasse uma brecha.
Isso aconteceu, porque a arca de guardar sentimentos de repente se calou, parou de chacoalhar e ficou inerte. Senti aquilo como pena, ou pesar. Mas não o vivi como definitivo, pois que a arca tinha das suas e escolhia bem as suas companhias.
Também decidi que não era questão de confrontar o querer, que era bicho raivoso. Ao contrário das porcelanas e de Inácia, deixei-o ficar. Logo ele também se cansaria, como todo animal habitado de insistência.


